Apreciação;
Cada um de um modo, cada um de uma maneira.

Apreciamos as relações pessoais... ou não...
Pense bem antes de abordar um estranho. Ele pode te mudar!!

Tuesday, 28 December 2010

Paulo, 52 anos, 2 filhos e divorciado.

Muitos acham que as coisas acontecem ao acaso. Que não existe o destino. Não existe um Carma.
Acredito que minha vida prova ser o contrário. Nela eu já fiz de tudo: chorei, dancei, brinquei e até mesmo briguei...Pois já dei as costas para ela uma vez... fumei maconha e fui a woodstock. Foi lá onde conheci a mãe de meus dois filhos, a Bruna.
Amar a vida foi diferente de amar a mulher ou os filhos. Por mais que você dê as costas a ela, ela nunca se divorciou ou saiu de casa. Pois é, foi assim a minha vida. Divorciado aos 52 anos, aposentado e com 2 filhos.
E onde é que entra a história de Carma nisso tudo? Acredito que em minhas conquistas e desejos impostos aos outros me trouxeram o sucesso, mas todo o resto me trouxe essa gratuidade com que vejo em me relacionar com meus sentimentos.
Era numa quarta-feira de verão, o dia ensolarado me trazia sono. Estava sentado no banco do carro com minha mulher ao lado. E nós íamos para a casa do nosso filho. Após um longo tempo ouvindo antigos blues, Bruna rompeu a melodia e disse: Não sinto mais nada... Não sei o que fazer... Minhas memórias que foram bombardeadas por longo período usando drogas e alcool, faiscaram como um relâmpago... Uma longa promessa de amor mútuo que tínhamos construído lá no passado, desabou. Ela me lembrou porque e como nós tínhamos ficado juntos... Até tentei um diálogo de conciliação... Mas foi em vão. O que mais me assustou, recordando e relatando esse acontecimento, foram meus sentimentos naquele momento. Não senti nada. Toda aquela conversa onde dizíamos que tipo de adulto não gostaríamos de ser, toda aquela força jovem que envolvia todos com o amor, Todas aquelas noites em que olhávamos para o céu estrelado e ficávamos deitados uns ao lado dos outros cantando e sorrindo... Isso tudo passou em minha cabeça. E mesmo assim, eu não senti nada.
Chegamos na casa de nosso filho para passar o natal. A família toda junta e nós nem sequer tocamos no assunto. Acabou o feriado e o divórcio foi rápido e tranquilo. Nossos filhos não gostaram, mas aceitaram.
Acho que se eu fosse mais jovem, eu não teria suportado aquilo tudo. A companheira de uma vida toda abandonar-te numa simples frase que demostra fraqueza de meia idade?
Mais tarde entendi que não era a falta de amor ou falta de sensibilidade aos outros que me fez perder um ouvido pra me ouvir... Era sim o excesso de satisfação e de gratuidade com que eu levava meus sentimentos em relação aos outros.
A importância com que eu tinha em relação aos outros me fez com que eu ficasse insensível aos meus próprios sentimentos... O que eu sentia, não importava... Meus sentimentos não tinham valores para mim... Bruna odiou isso ao longo dos anos.
Ao relatar isso, me vêm lágrimas aos olhos... E esse tratamento de choque contra a insensibilidade aos meus próprios sentimentos, funcionou. Perdi um par de ouvidos... Mas ganhei um coração... Um coração que me fez sentir o amor pela vida.

Monday, 27 December 2010

Arte de seduzir?... A arte de pagar... e a arte de amar... e talvez mudar...

Noites sem sono... Pupilas dilatadas... Lua cheia. Tudo indica minha excitação instintiva.
Mas amanhã tenho que trabalhar, e o casal ao lado não para com a dança.
Muitos dias o silêncio é o meu maior amigo. Ele não tem desejos e nem vontades, é como se fosse um filho bastardo... Mas hoje ele foi dispensado.
Minha personalidade não permite boas relações humanas. Uma vez até tentei, mas tudo que ganhei foi a frieza e falta de afeto com que aprendi a abraçar um próximo. Tudo se tornou tão frio e animal... Nem mais um simples gozo com a vida é aceitável para mim. Tudo se tornou sistemático. E lá estou eu. Ligando para Carla.
Para mim, o sexo é a satisfação carnal... Meu gozo se junta a sublimação emocional... Mas essa sublimação é imperfeita... A beleza que existe por trás dessa fria troca de interesses é puramente erótica... Esses lábios tão macios que me beijam essa noite foram comprados...
O despertador toca, e eu me levanto como se fosse uma programação. O quarto está bagunçado e desarrumado. Se este quarto fosse de um hotel, se não soubessem quem e como eu sou, diriam que a noite foi romântica. Mas a verdade bate em minha cabeça na hora de sair para trabalhar. Trabalhar para pagar os lábios que me amaram ontém a noite.
Não sei o que é... Acho que assim é mais prático... Assim ninguém se machuca... O problema sou eu... Sou muito egoísta para me relacionar com alguém... Nunca senti um amor verdadeiro... Isso tudo já foi dito e redito... Mas o telefone da Carla está na geladeira. E ela não me ama... e nem eu amo ela...
Uma vez eu perguntei a Carla porque ela fazia aquilo... sendo ela tão bonita e não aparentava ter necessidade de dinheiro. Sedutora, Carla respondeu: Uma vez eu tentei, mas o problema é comigo mesmo... não consigo amar alguém... acho isso tão... falso... Então por que não? decidi satisfazer meus desejos num "trabalho" extra...Não disse nada. Depois de um tempo de silêncio e uns beijos ela me perguntou porque eu a pagava.
Eu disse que ela era a mais parecida com minha amada na qual havia falecido ainda na adolescência(uma grande mentira).
De uma certa forma eu vejo uma beleza em nossas vidas... Posso até mesmo compará-las a uma arte. Nossas vidas são bagunçadas de uma certa forma... Tanto a minha quanto a da Carla. A beleza de seguir o que a natureza nos manda é o que eu vejo. Nós temos desejos e vontades sim! somos animais que nos elevamos a uma categoria superior que chamamos de humanos e nos achamos donos desse mundo. Mas somos tão selvagens e agimos tão instintivamente como primatas. Não estamos contrariando a natureza... Não dizemos palavras hipócritas sobre o amor... Apenas agimos conforme nossos corpos mandam. Nenhum valor moral comanda a mim ou a Carla. Vestimos uma máscara social que nos camufla nessa selva chamada sociedade... Não podemos ser predados ainda. Eu pago a Carla e seus lábios navegam pelo meu corpo.
Esse movimento calculado arrepia minha pele... Seu suspiro me dá cócegas... Sua voz me excita. Essa arte de seduzir... Não por amor... Mas por seguir um instinto animal de satisfação me agrada... E as conversas que dispensam meu filho bastardo muitas vezes também me agradam...
As vezes penso como seria se a Carla estivesse em casa quando eu chegasse do trabalho... Mas não, não... Isso talvez seria algo chamado "amor"...
Por isso eu acho que a vida é uma arte que nunca ficará pronta... ela está sendo feita... mas nunca chegaremos a terminá-la... Quando morrermos, ela ficará nas memórias de uns, outros ficarão na memória de outros que não me conhecem. E esses que não me conhecem não chegarão a ver a minha arte... E assim ela será perdida no tempo. Mesmo assim eu ainda tenho o telefone da Carla em minha geladeira... Mas na pia do banheiro há duas escovas... Na cama, dois travesseiros... E pregada na parede, há uma foto. Uma foto com duas pessoas... Eu e a Carla...