Muitos acham que as coisas acontecem ao acaso. Que não existe o destino. Não existe um Carma.
Acredito que minha vida prova ser o contrário. Nela eu já fiz de tudo: chorei, dancei, brinquei e até mesmo briguei...Pois já dei as costas para ela uma vez... fumei maconha e fui a woodstock. Foi lá onde conheci a mãe de meus dois filhos, a Bruna.
Amar a vida foi diferente de amar a mulher ou os filhos. Por mais que você dê as costas a ela, ela nunca se divorciou ou saiu de casa. Pois é, foi assim a minha vida. Divorciado aos 52 anos, aposentado e com 2 filhos.
E onde é que entra a história de Carma nisso tudo? Acredito que em minhas conquistas e desejos impostos aos outros me trouxeram o sucesso, mas todo o resto me trouxe essa gratuidade com que vejo em me relacionar com meus sentimentos.
Era numa quarta-feira de verão, o dia ensolarado me trazia sono. Estava sentado no banco do carro com minha mulher ao lado. E nós íamos para a casa do nosso filho. Após um longo tempo ouvindo antigos blues, Bruna rompeu a melodia e disse: Não sinto mais nada... Não sei o que fazer... Minhas memórias que foram bombardeadas por longo período usando drogas e alcool, faiscaram como um relâmpago... Uma longa promessa de amor mútuo que tínhamos construído lá no passado, desabou. Ela me lembrou porque e como nós tínhamos ficado juntos... Até tentei um diálogo de conciliação... Mas foi em vão. O que mais me assustou, recordando e relatando esse acontecimento, foram meus sentimentos naquele momento. Não senti nada. Toda aquela conversa onde dizíamos que tipo de adulto não gostaríamos de ser, toda aquela força jovem que envolvia todos com o amor, Todas aquelas noites em que olhávamos para o céu estrelado e ficávamos deitados uns ao lado dos outros cantando e sorrindo... Isso tudo passou em minha cabeça. E mesmo assim, eu não senti nada.
Chegamos na casa de nosso filho para passar o natal. A família toda junta e nós nem sequer tocamos no assunto. Acabou o feriado e o divórcio foi rápido e tranquilo. Nossos filhos não gostaram, mas aceitaram.
Acho que se eu fosse mais jovem, eu não teria suportado aquilo tudo. A companheira de uma vida toda abandonar-te numa simples frase que demostra fraqueza de meia idade?
Mais tarde entendi que não era a falta de amor ou falta de sensibilidade aos outros que me fez perder um ouvido pra me ouvir... Era sim o excesso de satisfação e de gratuidade com que eu levava meus sentimentos em relação aos outros.
A importância com que eu tinha em relação aos outros me fez com que eu ficasse insensível aos meus próprios sentimentos... O que eu sentia, não importava... Meus sentimentos não tinham valores para mim... Bruna odiou isso ao longo dos anos.
Ao relatar isso, me vêm lágrimas aos olhos... E esse tratamento de choque contra a insensibilidade aos meus próprios sentimentos, funcionou. Perdi um par de ouvidos... Mas ganhei um coração... Um coração que me fez sentir o amor pela vida.
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